Moradores da zona leste denunciam condições do Hospital Geral de São Mateus em audiência na Alesp
27/04/2026 20:00 | Saúde pública | Fernanda Franco - Fotos: Patricia Domingos
Dezenas de moradores da zona leste da Capital paulista lotaram o auditório Teotônio Vilela da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, nesta segunda-feira (27), em audiência pública contra o que chamam de "desmonte" do Hospital Geral de São Mateus. A unidade, referência local com cerca de 18 mil atendimentos mensais, foi alvo de denúncias decorrentes da precariedade na gestão.
"Essa situação é absolutamente desumana para uma política pública que tem que ter muita humanidade. Nós temos o entendimento de que o serviço de saúde tem que salvar vidas", disse a deputada Professora Bebel (PT), proponente do evento.
A parlamentar relembrou que a luta por melhores condições no hospital é uma demanda antiga e, por isso, enfatizou o esforço de reunir representantes das três esferas de governo na audiência, como o vereador Alessandro Guedes e o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP). Também estiveram presentes a diretora do hospital e representantes do Movimento SOS Hospital São Mateus.
Abandono
Ao longo da audiência, diversos moradores que utilizam a unidade apresentaram reclamações e relataram situações angustiantes. Entre eles, destaca-se o depoimento da recepcionista Priscilla Araújo. Sua filha Melissa perdeu o bebê durante o trabalho de parto no hospital.
Segundo Priscilla, sua filha deu entrada na maternidade para a realização de uma cesariana humanizada. No entanto, no decorrer do atendimento, teria sido induzida a um parto normal. "As enfermeiras indicaram o uso de medicamentos para que o bebê pudesse nascer. Assim foi feito, e, depois de algum tempo, o batimento cardíaco já estava fraco. Mesmo diante disso, como não havia médico no local, elas deram continuidade à indução do parto normal", relatou Priscilla.
Em tom de indignação, ela afirmou que vai continuar lutando por justiça. "Essa é a nossa revolta. Vou lutar por justiça pelo Davi Luca até o fim. Hoje tenho uma filha em depressão porque perdeu o filho. Eu quero que a gestão desse hospital seja punida", disse a mãe.
Vilma Araújo da Silva, desempregada, é moradora de São Mateus há 10 anos. Há 2, está na fila de espera por cirurgias no quadril e nos joelhos. "É muito difícil essa situação. Estou andando de muleta esperando colocar a prótese e sem essas cirurgias não consigo voltar a trabalhar", disse. Antes das limitações físicas, Vilma era diarista. Para ela, o sentimento é de revolta. "Cada dia que passa fica mais difícil. Me atrapalha em tudo", concluiu.
Crise crônica
O Hospital Geral de São Mateus (HGSM) foi inaugurado em 1991 após movimentos populares de saúde iniciados na década de 1970. A unidade surgiu por conquista popular para atender a alta demanda na zona leste. É o único hospital da região de portas abertas, integra o Sistema Único de Saúde (SUS) e se tornou referência em tratamento de queimaduras e atendimentos de alta complexidade.
De acordo com o representante do Movimento Popular de Saúde de São Mateus, Antônio Fernando da Silva Lima, a situação do hospital sempre foi precária, mas piorou nos últimos dois anos. Falta de médicos, equipamentos quebrados, demora no agendamento de consultas, superlotação, internações e atendimentos nos corredores e casos de negligência médica que levaram a óbito são as principais reclamações. "A gente vem cobrando a Secretaria Estadual de Saúde há muito tempo, levando todas essas reclamações, mas a gente não vê uma resposta à altura da necessidade do hospital", disse Lima.
Para a presidente da Associação de Moradores do Jardim Alto Paulistano, Eurice Rita da Silva, o sucateamento dos equipamentos e do quadro de funcionários são os principais problemas. "Há pouco tempo fui socorrer uma família vizinha e o pai desse rapaz faleceu no meio do corredor, porque não tinha profissional suficiente", lamentou.
Ela destacou ainda que toda a zona leste depende muito dos serviços prestados pelo Hospital. "A gente não tem onde se socorrer. Então, é muito triste ver um hospital que lutamos a vida inteira para conquistar morrendo aos poucos por negligência dos administradores públicos", criticou.
A situação dos funcionários do hospital também é preocupante. A representante do SindSaúde (Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo), Magali Amaral, contou que houve aumento de pedidos de demissão e casos de adoecimento físico e mental.
O que diz a gestão
A direção do Hospital Geral de São Mateus compareceu à audiência e reconheceu todas as reclamações e desafios enfrentados pela unidade. A diretora Camila Lauro Motta Branco, à frente da gestão desde janeiro deste ano, apresentou um panorama destacando as conquistas recentes da unidade e respondeu algumas demandas.
De acordo com os dados apresentados, o hospital registrou, na última década, um crescimento expressivo na demanda. Os atendimentos saltaram de 109.585 em 2015 para 170.830 em 2025. Por outro lado, o número de profissionais caiu significativamente no mesmo período: de 1.435 para 806. "Temos cobrado das autoridades estaduais e da coordenadoria mais contratações", afirmou Camila.
A diretora também reconheceu a existência de problemas no atendimento humanizado, mas reforçou que tem implementado mudanças com o objetivo de melhorar o funcionamento do hospital. Entre as medidas, estão a meta de zerar o número de macas nos corredores e obras para melhorias estruturais, como a construção de uma calçada acessível e aquisição do novo equipamento de tomografia.
Também foram realizados concursos públicos para contratação de 15 novos médicos para as áreas de UTI adulto, neonatologia e anestesiologia. Além disso, a partir do recebimento de servidores transferidos de outros hospitais, houve a reabertura total dos leitos de internação adulto. Hoje, o hospital opera com 170 leitos. A diretora não detalhou se novos leitos serão abertos.
Ao final, a diretora ressaltou o comprometimento das equipes e afirmou que está aberta a ouvir demandas para buscar soluções.
Assista à audiência pública, na íntegra, em transmissão da TV Alesp:
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