Da tradição europeia às vozes nacionais: música clássica brasileira é popular
05/03/2026 16:08 | Dia Nacional da Música Clássica | Fernanda Franco - Fotos: Wikimedia Commons, Fernanda Franco e Débora Neves/Acervo pessoal
Celebrado em 5 de março, o Dia Nacional da Música Clássica homenageia o nascimento do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos e também o esforço constante de torná-la mais acessível, diversa e contemporânea. Presente em salas de concerto, escolas de música e projetos educativos e sociais, a música clássica segue se reinventando para dialogar com novos públicos, localidades e realidades para popularizar o gênero.
Para a musicista e gestora cultural Isabela Pulfer, a data é um convite à reflexão sobre a preservação do repertório clássico, sem deixar de abrir espaço para novas vozes e olhares. "A música clássica é como a boa literatura: tem complexidade, exige atenção e transforma quem escuta", afirma.
Apesar da tradição, a música clássica ainda enfrenta desafios no Brasil, principalmente relacionados à formação de público e à percepção de que se trata de um gênero elitista.
Isabela contesta essa ideia e afirma que há interesse do público. "Se engana quem acha que música clássica não tem público. Os teatros costumam estar cheios, especialmente em produções de ópera", reforça.
Da corte ao povo
A música clássica, também chamada de música erudita, surgiu na Europa e tem raízes no canto gregoriano da Idade Média. Durante séculos, esteve fortemente ligada à Igreja, principalmente como música sacra composta para rituais religiosos.
Com o passar do tempo, as composições se tornaram cada vez mais complexas, incorporando novas melodias, estruturas e polifonias. De acordo com Isabela, o repertório se expandiu para além do ambiente religioso e das cortes europeias, passando a ocupar teatros, salas de concerto e espaços públicos. Esse processo contribuiu para consolidar a música clássica como uma das tradições artísticas mais duradouras da história.
A ópera, por exemplo, era um entretenimento restrito às cortes aristocráticas europeias. Porém, com o passar dos séculos, o gênero ganhou teatros públicos e se popularizou nas grandes cidades. Em centros urbanos como Londres, a busca por novas formas de lazer ajudou a impulsionar esse tipo de espetáculo que logo se expandiu para o mundo.

Inspirado nos teatros europeus, Theatro Municipal foi o primeiro grande palco da ópera em São Paulo. Foto: Sylvia Masini/Theatro Municipal
Música clássica no Brasil
Embora tenha origem europeia, a música clássica também construiu uma trajetória própria no Brasil. No século XX, compositores como Heitor Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone incorporaram elementos da cultura brasileira às composições eruditas, criando um repertório nacional marcante.
Apesar disso, Isabela observa que a forte tradição da música popular brasileira muitas vezes acaba ofuscando a produção erudita. "A música popular brasileira é tão rica que muitas pessoas ficam nesse universo e acabam não entrando na música clássica", comenta.
Ópera
Entre os gêneros mais conhecidos da música clássica está a ópera, que surgiu no final do século 16, em Florença, na Itália. A ideia inicial era recriar as antigas tragédias gregas por meio da combinação de música, poesia e encenação.
Segundo Isabela Pulfer, a tentativa acabou gerando uma forma artística completamente nova. "O compositor italiano Monteverdi ao tentar reproduzir o modelo antigo, acabou inventando outra coisa, porque depois descobrimos que a tragédia grega não era exatamente nesse formato", explica.
No Brasil, Antônio Carlos Gomes é o precursor e principal nome da ópera nacional. O compositor campineiro alcançou a fama internacional no século 19, ao estrear obras como "O Guarani", baseada no romance homônimo de José de Alencar, e "Salvador Rosa" no Teatro alla Scala de Milão.
Apesar de tratar de temas brasileiros, as composições eram escritas em italiano e seguiam o modelo europeu da época. "Carlos Gomes era um sucesso absoluto, mas seus textos refletem visões de mundo datadas. Hoje, há um esforço de contextualizar e reinterpretar essas obras", explica Isabela.
Justamente à luz de questões atuais e envolvendo os povos originários no espetáculo, o Theatro Municipal estreou em 2023 uma remontagem de "O Guarani", dirigida por Ailton Krenak, com o objetivo de propor uma releitura da história.
Presença feminina
Durante muito tempo, o mundo da música clássica foi majoritariamente masculino. Compositoras e instrumentistas raramente tinham, ou não tinham, o mesmo reconhecimento que os colegas homens.
Na história da música, nomes como Fanny Mendelssohn, Clara Schumann e Alma Mahler enfrentaram obstáculos para ter as obras reconhecidas. Em muitos casos, mulheres sequer podiam participar de determinadas atividades musicais.
Entre os séculos 17 e 18, por exemplo, era comum a prática dos Castrati, cantores que eram castrados antes da puberdade para manter a voz aguda, substituindo as vozes femininas em igrejas e óperas.
Uma das transformações simbólicas foi a adoção das chamadas audições às cegas em orquestras, em que os músicos se apresentam atrás de um biombo para evitar discriminação de gênero. A medida contribuiu para aumentar a presença feminina nas orquestras e óperas. Hoje, embora ainda existam desigualdades, o cenário está gradualmente mais diverso, com mais compositoras, regentes e instrumentistas.
Novos artistas
Outro fator essencial para o fortalecimento da música clássica no Brasil é a formação de novos artistas. Instituições como a Emesp Tom Jobim, a Escola Municipal de Música de São Paulo e programas de formação ligados a teatros e orquestras oferecem ensino especializado e oportunidades para jovens músicos.
A cantora Débora Neves, de 26 anos, faz parte dessa nova geração. Natural de Bauru, iniciou a formação musical na Capital paulista em 2020, quando ingressou em conservatórios de música clássica.
"Entrei na Emesp Tom Jobim e depois na Escola Municipal de Música. Desde o início, meus professores perceberam meu interesse pela ópera e me incentivaram a estudar esse repertório", conta.
Posteriormente, a cantora foi selecionada para a Academia de Ópera do Theatro São Pedro, um programa voltado à formação de jovens artistas. "A academia me preparou muito para estudar personagens, entender o contexto das obras e encarar montagens que às vezes duram horas", explica.
Débora Neves à direita, como fada, na ópera "João e Maria" apresentada no Theatro Municipal em outubro de 2025. Foto: Débora Neves/Acervo pessoal.
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