Compasso, viola e tradição: a força da Catira como símbolo do patrimônio cultural de São Paulo

Nascida da mistura de culturas e imortalizada pelas rotas tropeiras, a dança típica do Estado resiste ao tempo e é mantida viva por grupos em Barretos e diversas outras regiões paulistas.
01/09/2026 17:46 | Música e tradição | Cauã Dezordi

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Catira também é chamada de cateretê<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367320.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Grupo de catira Espora de Prata<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367318.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Dança está acompanhada da música de viola e violão<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367319.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a> Grupo Família Du Catira<a style='float:right;color:#ccc' href='https://www3.al.sp.gov.br/repositorio/noticia/N-09-2026/fg367276.jpg' target=_blank><i class='bi bi-zoom-in'></i> Clique para ver a imagem </a>

A Catira, também chamada de Cateretê, é uma das expressões folclóricas mais tradicionais do Estado de São Paulo. A dança é caracterizada pelo som da viola caipira acompanhada por uma percussão corporal realizada pelos próprios dançarinos, que batem os pés e as palmas de forma sincronizada. A prática é reconhecida como um elemento central da identidade cultural do interior paulista.

A origem da manifestação remonta ao período colonial e resulta do contato entre diferentes culturas. Estudos historiográficos e folclóricos apontam que a Catira tem raízes em rituais indígenas que habitavam a região sudeste. Durante o processo de colonização, os padres jesuítas adaptaram esses ritmos para uso na catequização. Com o passar do tempo, a dança incorporou elementos das culturas africana e ibérica. A difusão pelo interior de São Paulo e por outros estados do país ocorreu principalmente por meio das rotas de tropeiros.

O reduto sertanejo de Barretos

O município de Barretos, reconhecido internacionalmente por sua vocação rural e por sediar a maior Festa do Peão da América Latina, consolida-se hoje como um dos principais guardiões dessa herança. A cidade se orgulha de abrigar grupos tradicionais que tratam a Catira com reverência e paixão. Nesses espaços, o ensino ultrapassa a barreira das gerações: há um esforço constante de atualização, com oficinas e a formação de grupos mirins que garantem que os mais jovens aprendam não apenas a coreografia complexa, mas o respeito integral pela cultura raiz.

Durante os encontros culturais do Noroeste Paulista, os catireiros barretenses sobem ao palco devidamente trajados. O conjunto de roupas é parte fundamental do espetáculo: camisas xadrez ou de botão, cintos vistosos, calças jeans, lenços no pescoço e chapéu. A presença desses grupos em eventos de grande porte ajuda a desmistificar a ideia de que o folclore está restrito ao passado, mostrando que a Catira pulsa com força no presente.

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A dinâmica de apresentação da Catira

A execução da Catira exige precisão técnica e alinhamento entre os integrantes. Na formação tradicional, os dançarinos organizam-se em duas fileiras opostas, enquanto uma dupla de violeiros conduz a apresentação com versos que abordam a rotina do campo, a religiosidade e as histórias do interior. Nos discursos do canto, conhecidos como recortes, os praticantes realizam as sequências de sapateados e palmas que caracterizam a dança, utilizando botas de couro para marcar a percussão no tablado.

A preservação dessa manifestação estende-se por diferentes regiões do território paulista. Em Olímpia, município reconhecido pela tradição folclórica, a dança integra encontros e festivais anuais que reúnem praticantes de todo o país. No Vale do Paraíba, em cidades como Paraibuna e São Luiz do Paraitinga, os grupos locais mantêm uma prática vinculada a festividades religiosas e eventos culturais. Municípios como São José do Rio Preto, Franca, Piracicaba e Sorocaba também registram a presença ativa de companhias e associações externas à preservação dessa expressão cultural.

Esporas de Prata

Um exemplo vivo dessa dedicação em Barretos é o grupo Catira Esporas de Prata, fundado em 1998 por Francisco Santana Junior e seu colega Fred. A iniciativa ganhou vida após Francisco assistir a uma apresentação do grupo Catira 25 de Agosto na cidade, experiência que o marcou e o motivou a formar sua própria companhia de Catira. Para manter a excelência na prática da dança, os integrantes precisam ir além do amor pela cultura caipira, encarando a prática com técnica. "A catira exige concentração, pensamento rápido e um esforço físico grande", relata Francisco à TV Alesp, evidenciando que a sincronia dos sapateados e palmas demandam um preparo intenso.

Essa força cultural sertaneja se sustenta não apenas pelo esforço dos veteranos na prática, mas pela capacidade de inspirar novos talentos. O dançarino Donizete, por exemplo, deu seus primeiros passos na manifestação justamente por se espelhar no trabalho do Esporas de Prata, e tempos mais tarde conseguiu integrar a composição dos dançarinos do Esporas de Prata. É através dessa admiração e proximidade que a herança folclórica se mantém viva. Como explicam os membros, a catira "passa de geração pra geração, tende a ter uma composição mais familiar e fortalece a raiz sertaneja do interior", garantindo que o ritmo marcado pelas botas de couro continue ecoando como um pilar da identidade paulista.

Para além de Barretos

A prática da catira estende-se a outros municípios do interior paulista, inserindo-se em um esforço regional de proteção à cultura. Em Araçatuba, o Grupo de Catira Tradição Araçá atua com o objetivo central de manter e repassar a técnica da dança. A iniciativa reforça a memória cultural do município, que registra uma ligação histórica estrutural com essa manifestação de origem indígena.

O coletivo atua de forma integrada às ações do Centro de Tradições Culturais, uma instituição voltada à pesquisa, valorização e difusão das expressões populares. O suporte institucional viabiliza a organização de espaços para ensaios e apresentações públicas, elementos práticos necessários para dar visibilidade à manifestação e garantir sua permanência nos dias atuais.

A preservação da catira também encontra representatividade na Grande São Paulo por meio da formalização de tradições familiares. No município de Itapevi, a Associação Família Du Catira atua com o propósito de preservar e incentivar a cultura caipira do Estado. Embora a família mantenha atividades ligadas ao folclore, o grupo foi oficialmente fundado em 2018 pelo tropeiro Carlos Eduardo da Silva, tendo as apresentações de dança como eixo central.

Du Catira e a manutenção da cultura em São Paulo

Inté, um dos organizadores do grupo Família Du Catira, reforçou a importância de manter a expressão cultural viva: "Manter a prática do Catira viva é um ato de persistência. Vivenciamos essa tradição desde criança e é um dever nosso, da Família Du Catira, preservar aquilo que nossos antepassados nos ensinaram.

Mais do que ensaios periódicos, a manutenção da cultura caipira exige um engajamento constante contra o desligamento histórico. A estratégia central para evitar o desaparecimento da dança tem sido o envolvimento direto das novas gerações, transformando o cotidiano familiar no principal palco de aprendizagem. O resultado dessa persistência tornou o grupo um marco do patrimônio imaterial "Tudo é passado de pai para filho, tio para sobrinho, avô para neto. Não podemos deixar cair no esquecimento e só conseguir fazer isso trazendo o público mais jovem com a gente. Graças a esse esforço, hoje somos reconhecidos pela UNESCO como o único grupo folclórico do estado de São Paulo."

O trabalho contínuo de conservação da arte popular tem gerado projeção institucional para o grupo. Em 2020, a Família Du Catira foi reconhecida pela Organização Internacional de Artes Folclóricas (IOV), entidade vinculada à Unesco, como patrimônio cultural imaterial. No âmbito estadual, a contribuição do coletivo resultou, em 2025, na indicação ao Prêmio Inezita Barroso, prestigiada honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).

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